Nunca foi
sobre comida
Repare numa terça-feira qualquer.
Não é feriado, não é data festiva. Não é sábado. Não é data de nada.
E mesmo assim as mesas estão cheias.
Olha bem para os clientes.
Ninguém atravessou aquela porta com fome.
Atravessou porque queria estar ali por um motivo que nem sempre sabe dizer:
Um pedido que não cabia numa mensagem;
um contrato fechado;
um “há quanto tempo”;
um amor começando;
um casamento resistindo.
Uma terça-feira que alguém decidiu, sozinho, que merecia ser mais que uma terça.
A comida é só o pretexto.
O prazer é outro. E ele é psicológico.
Ninguém guarda na memória o que foi comido.
Guarda o que aconteceu na mesa.
Faz quase duzentos e cinquenta anos que é assim.
O restaurante não nasceu pra matar a fome.
Pra isso sempre existiu a cozinha de casa.
Ele nasceu palco. Nasceu lugar de encontrar, de se mostrar, de marcar a vida.
Ele nasceu lugar de restauro.
Você só esqueceu disso.
Mas lembrou quando a conveniência do aplicativo roubou o que nunca foi do salão.
Lembrou quando o delivery chegou e lhe tomou a fome.
Só que a fome nunca foi prêmio do salão.
Que fique com ela.
Ao delivery, o que é do delivery: matar a fome.
Ao salão, o que sempre foi o motivo de ser: celebrar.
O garçom anotou o pedido.
Ninguém perguntou o motivo.
E naquele instante tinha uma celebração acontecendo.
Ela passou em branco.
Passou em branco a data.
Passou em branco o motivo.
Passou em branco a chance de fazer aquela pessoa voltar.
E voltar trazendo gente.
Mas isso acaba agora!
Não porque inventamos algo novo.
Mas porque lembramos de algo primordial:
Seu restaurante nunca vendeu comida.
Vendeu encontro. Vendeu memória.
Vendeu o dia em que valeu a pena sair de casa.
Mas a verdade é que você nunca tinha chamado isso pelo nome:
Celebração.
E celebração não é sorte.
É ofício.
Celebração se provoca, se cuida, se cultiva.
Para de servir mesa e começa a perguntar o motivo.
Olha pra cada cliente que cruza a sua porta e entende de uma vez:
Ele está comemorando alguma coisa! Sempre está.
Nunca foi sobre comida.
Nunca foi sobre o prato, o preço, a fome.
Sempre foi sobre a vida acontecendo em volta de uma mesa.
Sempre foi sobre celebrar.